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    Faris Giacaman* analisa "A Indústria da Paz" do Médio Oriente

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    Vitor mango
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    Faris Giacaman* analisa "A Indústria da Paz" do Médio Oriente

    Mensagem  Vitor mango em Sab Ago 29, 2009 8:13 am

    Faris Giacaman* analisa "A Indústria da Paz" do Médio Oriente

    Promover
    a "coexistência"e"diálogo” é danoso ao apelo da sociedade civil
    palestina em favor do boicote e sanções, meios de pressionar o Sionismo
    a cessar as violações dos direitos dos palestinos.





    Faris Giacaman* |
    Somos todos Palestinos |
    28-8-2009 | 38 lecturas



    www.kaosenlared.net/noticia/faris-giacaman-analisa-industria-da-paz-do-medio-oriente


































    Ao
    descobrirem que sou palestino, muitas pessoas que encontro na
    universidade aqui nos Estados Unidos ficam ansiosas por informar-me de
    várias atividades em que têm participado a fim de promover
    "coexistência" e "diálogo" entre ambos os lados do "conflito", sem
    dúvida à espera de um aceno de aprovação da minha parte. Contudo, estes
    esforços são danosos e minam o apelo da sociedade civil palestina em
    favor do boicote, desinvestimento e sanções a Israel – o único meio de
    pressionar Israel a cessar as suas violações dos direitos dos
    palestinos.
    Quando eu freqüentava o secundário,
    em Ramalá, uma das iniciativas "pessoa-a-pessoa" mais conhecidas, a
    Seeds of Peace, muitas vezes visitava a minha escola, pedindo aos
    estudantes para aderirem ao seu programa. Quase todos os anos eles
    enviavam alguns dos meus colegas a um campo de Verão nos EUA com um
    grupo de estudantes israelenses. Segundo o sítio web de Seeds of Peace,
    ensinam-lhes no campo a "desenvolver empatia, respeito e confiança bem
    como liderança, comunicação e aptidões de negociação – componentes
    críticos que facilitarão a coexistência pacífica da geração seguinte".
    Eles
    pintam um quadro róseo e a maior parte das pessoas na universidade fica
    muito surpreendida ao ouvir que penso serem tais atividades equivocadas
    na melhor das hipóteses e imorais na pior. Por que diabos eu era contra
    a "coexistência", perguntavam-me sempre.
    Durante
    os últimos anos tem havido apelos crescentes a por um fim à opressão do
    povo palestino por Israel através de um movimento internacional de
    boicote, desinvestimento e sanções (BDS). Uma das objeções comuns ao
    boicote é que ele é contra-producente e que o "diálogo" e a "promoção
    da coexistência" são muito mais construtivos do que boicotes.
    A
    partir do início dos acordos de Oslo, em 1993, tem havido toda uma
    indústria que opera no sentido de reunir israelenses e palestinos
    nestes grupos de "diálogo". A finalidade declarada de tais grupos é a
    criação de entendimento entre "ambos os lados conflito", a fim de
    "construir pontes" e "ultrapassar barreiras". Contudo, a suposição de
    que tais atividades ajudarão a facilitar a paz não é não só incorreta
    como realmente carente de moral.
    A presunção de
    que o diálogo é necessário a fim de alcançar a paz ignora completamente
    o contexto histórico da situação na Palestina. Ela assume que ambos os
    lados cometeram uma quantidade mais ou menos igual de atrocidades um
    contra o outro e que são igualmente culpáveis pelos erros que foram
    cometidos. É assumido que nenhum lado está completamente certo ou
    completamente errado, mas que ambos têm direitos legítimos que deveriam
    ser tratados e certos pontos mortos que devem ser ultrapassados.
    Portanto, ambos os lados devem ouvir o ponto de vista do "outro" a fim
    de promover o entendimento e a comunicação, os quais presumivelmente
    levariam à "coexistência" ou a "reconciliação".
    Tal
    abordagem é considerada "equilibrada" ou "moderada", como se isto fosse
    uma coisa boa. Contudo, a realidade no terreno é imensamente diferente
    do que a visão "moderada" deste assim chamado "conflito". Mesmo a
    palavra "conflito" é enganosa, pois ela implica uma disputa entre duas
    partes simétricas.
    A realidade não é assim;
    não se trata de um caso de simples falta de entendimento ou de ódio
    mútuo que se atravessa no caminho da paz. O contexto da situação em
    Israel/Palestina é de colonialismo, apartheid e racismo, uma situação
    na qual há um opressor e um oprimido, um colonizador e um colonizado.
    Em
    casos de colonialismo e apartheid, a história mostra que regimes
    coloniais não abandonam o poder sem luta e resistência popular, ou
    pressão internacional direta. É uma visão particularmente ingênua
    assumir que a persuasão e a "conversação" convencerão um sistema
    opressor a renunciar ao seu poder.
    O regime do
    apartheid na África do Sul, por exemplo, foi finalizado após anos de
    luta com a ajuda vital de uma campanha internacional de sanções,
    desinvestimentos e boicotes. Se alguém houvesse sugerido aos oprimidos
    sul-africanos que viviam nos bantustões a tentar e entender o ponto de
    vista do outro (isto é, dos partidários da supremacia branca), as
    pessoas sorriam de uma noção tão ridícula. Analogamente, durante a luta
    indiana pela emancipação do domínio colonial britânico, Mahatma Gandhi
    não teria sido venerado como um combatente pela justiça se houvesse
    renunciado à satyagraha – "ater-se firmemente à verdade", a sua
    expressão para o movimento de resistência não violenta – e ao invés
    disso houvesse advogado em favor do diálogo com os ocupantes
    colonialistas britânicos a fim de entender o seu lado da história.
    Entretanto,
    é verdade que alguns sul-africanos brancos tomaram posição de
    solidariedade com os negros oprimidos e participaram na luta contra o
    apartheid. E havia, certamente, alguns britânicos dissidentes das
    políticas coloniais do seu governo.
    Mas
    aqueles apoiadores posicionaram-se explicitamente ao lado dos oprimidos
    com o objetivo claro de acabar com a opressão, de combater as
    injustiças perpetradas pelos seus governos e representantes. Qualquer
    reunião conjunta de ambas as partes, portanto, só pode ser moralmente
    sã quando os cidadãos do estado opressivo posicionam-se em
    solidariedade aos membros do grupo oprimido, não sob a bandeira do
    "diálogo" com o objetivo de "entender o outro lado da história".
    O diálogo só é aceitável quando efetuado a fim de entender o problema do oprimido, não no contexto de "ouvir ambos os lados".

    Entretanto,
    tem sido argumentado pelos proponentes palestinos destes grupos de
    diálogo que tais atividades podem ser utilizados como uma ferramenta –
    não para promover o assim chamado "entendimento" – mas para realmente
    ganhar israelenses para luta palestina pela justiça, persuadindo-os ou
    "tendo eles de reconhecer a nossa humanidade".
    Contudo,
    esta concepção também é ingênua. Infelizmente, a maior parte dos
    israelenses caiu vítima da propaganda com que o establishment sionista
    e os seus muitos instrumentos os alimentam desde tenra idade. Além
    disso, exigirá um esforço enorme e concertado contrariar esta
    propaganda através da persuasão. A maior dos israelenses, por exemplo,
    não será convencida de que o seu governo atingiu um nível de
    criminalidade que justifique um apelo ao boicote. Mesmo que eles sejam
    convencidos logicamente das brutalidades da opressão israelense,
    provavelmente não será o suficiente para levá-los a qualquer forma de
    ação. Isto se tem provado reiteradamente verdadeiro, o que é evidente
    no fracasso abjeto de tais grupos de diálogo para formarem qualquer
    movimento abrangente anti-ocupação desde os seus primórdios com o
    processo de Oslo. Na realidade, nada menos do que a pressão sustentada
    – não a persuasão – fará os israelenses perceberem que os direitos dos
    palestinos têm de ser retificados. Esta é a lógica do movimento BDS, o
    qual é inteiramente oposto à falsa lógica do diálogo.
    Com
    base num relatório não publicado de 2002 do Israel/Palestine Center for
    Research and Information, o San Francisco Chronicle informou em Outubro
    último que "entre 1993 e 2000 [apenas], governos e fundações ocidentais
    gastaram entre US$20 milhões e US$25 milhões nos grupos de diálogo". Um
    ulterior inquérito em grande escala a palestinos que participaram nos
    grupos de diálogo revelou que esta grande despesa falhou em produziu
    "um único ativista da paz em qualquer dos lados". Isto confirma a
    crença entre palestinos de que todo o empreendimento é um desperdício
    de tempo e de dinheiro.
    O inquérito também
    revelou que os participantes palestinos não eram plenamente
    representativos da sua sociedade. Muitos participantes tendiam a ser
    "filhos ou amigos de altos responsáveis palestinos ou das elites
    econômicas. Apenas sete por cento dos participantes eram residentes em
    campos de refugiados, muito embora eles constituam 16 por cento da
    população palestina". O inquérito também descobriu que 91 por cento dos
    participantes palestinos já não mantinham laços com os israelenses com
    quem se encontraram. Além disso, 93 por cento não foram abordados com
    atividade de campo a seguir e apenas cinco por cento concordaram em que
    toda a experiência ajudou a "promover paz, cultura e diálogo entre
    participantes".
    Apesar do inequívoco fracasso
    destes projetos de diálogo, continua a ser investido dinheiro neles.
    Como explicou Omar Barghouti, um dos membros fundados do movimento BDS
    na Palestina, em The Electronic Intifada, "houve demasiadas tentativas
    de diálogo desde 1993 ... tornou-se uma indústria – chamamo-la a
    indústria da paz".
    Isto pode ser atribuído
    parcialmente a dois fatores. O fator dominante é o papel utilizável de
    tais projetos em relações públicas. O Seeds of Peace, por exemplo,
    jacta-se da sua legitimidade apresentando um impressionante conjunto de
    endossos por parte de políticos e autoridades tais como Hillary
    Clinton, Bill Clinton, George Mitchell, Shimon Peres, George Bush,
    Colin Powell e Tony Blair, dentre outros. O segundo fator é a
    necessidade de certos "esquerdistas" e "liberais" israelenses sentirem
    como se estivessem a fazer alguma coisa admirável ao "questionarem-se",
    quando na realidade eles não tomam nenhum posicionamento significativo
    contra os crimes que o seu governo comete em seu nome. Os políticos e
    os governos ocidentais continuam a financiar tais projetos, promovendo
    dessa forma as suas imagens como apoiantes da "coexistência", e os
    "liberais" participantes israelenses podem isentar-se de qualquer culpa
    pela participação no nobre ato de "promover a paz". Um relacionamento
    simbiótico, muito insatisfatório.
    A falta de
    resultados de tais iniciativas não é surpreendente, pois os objetivos
    declarados do diálogo e grupos de "coexistência" não incluem convencer
    israelenses a ajudar palestinos a ganharem o respeito dos seus direitos
    inalienáveis. A exigência mínima de reconhecer a natureza inerentemente
    opressiva de Israel está ausente nestes grupos de diálogo. Ao invés
    disso, estas organizações operam sob a dúbia suposição de que o
    "conflito" é muito complexo e multifacetado, o­nde há "dois lados em
    toda história" e que cada narrativa tem certas afirmações válidas assim
    como dúbias.
    Quando o apelo autorizado Campanha
    Palestina pelo Boicote Académico e Cultural de Israel faz o seu
    caminho, quaisquer atividades conjuntas palestino-israelenses – quer
    sejam projeções de filmes ou campos de Verão – pode ser aceitável só
    quando o seu objetivo declarado for finalizar, protestar e/ou despertar
    a consciência quanto à opressão dos palestinos.
    Qualquer
    israelense que procure interagir com palestinos, com o objetivo claro
    de solidariedade e de ajudá-los a acabar com a opressão, será saudado
    de braços abertos. Mas deve haver cautela, contudo, quando são feitos
    convites para participar num diálogo entre "ambos os lados" do assim
    chamado "conflito".
    Qualquer apelo a um
    discurso "equilibrado" sobre esta questão – o­nde o lema "há dois lados
    em toda história" é reverenciado quase religiosamente – É
    intelectualmente e moralmente desonesto pois ignora o fato de que,
    quando se trata de casos de colonialismo, apartheid e opressão não tal
    coisa como "equilíbrio".
    A sociedade opressora, de modo geral, não renunciará aos seus privilégios sem pressão.
    É por isso que a campanha BDS é um importante instrumento de mudança.

    [*] Estudante palestino da Cisjordânia, a fazer o segundo ano da universidade nos Estados Unidos
    O original encontra-se em http://electronicintifada.net/v2/article10722.shtml

      Data/hora atual: Sab Set 23, 2017 6:57 am